2008-10-12

Andrea Mantegna "invenit"

Andrea Mantegna, Agonia no horto, c. 1457-59 (Tours)
Andrea Mantegna, Agonia no horto, c. 1460 (Londres)
A propósito da exposição  Mantegna no Museu do Louvre, vale a pena trazer aqui esta versão de Agonia no horto, pintada em c. 1460, que se encontra na National Gallery de Londres e que antecedeu, em cerca de dois anos, uma outra pintura, com o mesmo tema, que Mantegna executou  (Museu de Tours). Do meu ponto de vista a versão londrina é mais eloquente na organização do espaço pictórico, num ziguezagueado ascendente, introduzindo várias narrativas: em primeiro plano, os apóstolos adormecidos; em plano de fundo, ao longe, Judas e um conjunto de guardas, deslocando-se na direcção de Cristo, provavelmente para o prender; em plano superior Jesus encontra-se em oração, face a um grupo de anjos, um deles apoiando-se numa cruz, símbolo da paixão.
Giovanni Bellini, Agonia no horto, c. 1465 (Londres)
As duas pinturas de Mantegna antecedem uma outra, com o mesmo tema, desta vez do veneziano Giovanni Bellini (cunhado de Mantegna), pintada c. 1460 (National Gallery, Londres). A representação de Bellini segue idêntico esquema compositivo, embora mais simplificado, favorecendo a cor, a representação de um céu "naturalista" (nascer do dia) e a diáfona presença de um anjo que exibe os atributos do sacrifício. Presume-se que tanto Mantegna como Bellini sejam devedores de um desenho de Jacopo Bellini, sogro do primeiro e pai do segundo, com o mesmo tema. A exposição de Paris reune um significativo número de obras de Mantegna (1430/1-150), artista nascido no norte de Itália, na região de Pádua e que se notabilizou como pintor, gravador e amante do "antigo" e dos clássicos, nas cortes dos Gonzaga e dos Este .

2008-10-10

Medalha de ouro para Siza

Adega em Campo Maior, arq. Álvaro Siza
He should make anyone proud to be, or want to be, an architect Jonathan Glancey, The Guardian
O arquitecto Siza Vieira acaba de ser galardoado com o prestigioso prémio RIBA (Royal Institute of British Architects) para o conjunto da sua obra. O arquitecto, que não tem obra construída no Reino Unido, participou com Souto Moura no projecto Summer Pavillion levado a cabo pela Serpentine Gallery, Londres (2005). Todos os anos, arquitectos de renome internacional, são convidados para dar corpo a uma estructura temporária que é erguida nos Jardins do Palácio de Kensington (Julho a Outubro). A edição do ano passado (2008), a oitava, contou com a participação do arquitecto Frank Gehrry. O Summer Pavillion passou a fazer parte do roteiro cultural de Londres durante o verão. Convirá não esquercer que a Serpentine Gallery é uma das mais reconhecidas galerias de Londres, com uma programação de grande qualidade. As suas exposições são imperdíveis.

2008-10-06

Fios de muitos embaraços III

Fios de muitos embaraços II

Rua 5 de Outubro
Rua Elias Garcia
Rua de S. Mamede ao Caldas
Rua da Saudade

Fios de muitos embaraços I

Rua Marquês de Tomar
Há mistérios insondáveis. Interrogo-me várias vezes sobre o porquê de existirem tantos prédios antigos com fios soltos, sejam eles de telefones, de televisão, eléctricos e tantos outros, que nem consigo identificar para que servem, tal o emaranhado, excrescendo das fachadas. Será que tudo funciona? O mistério adensa-se com o passar do tempo, pois grande parte desses verdadeiros “novelos” permanecem durante anos, sem que nada aconteça. Muitos dos fios são puxados, repuxados e a confusão instala-se. Os prédios novos não registam estes “embaraços”, uma vez que os projectos de construção previram as várias necessidades da vida moderna, em que um simples cabo é veículo de múltiplos confortos, da televisão por cabo à Internet, passando pelo inevitável telefone fixo. Todavia, aos edifícios mais velhos, concebidos noutros tempos, de mais parcas comodidades, são-lhe sucessivamente acrescentados cabos, fios e outras utilidades, à medida das exigências dos seus ocupantes, sejam eles arrendatários ou proprietários, de diferentes gerações, etnias, culturas ou estratos sociais. Podemos constatar que o caos se instalou, principalmente, depois desses edifícios serem sujeitos a obras exteriores, sejam elas estruturais ou de simples cosmética. Será assim tão difícil reconstituir as instalações, depois de pintadas as fachadas, as janelas e vãos, varandins e outros elementos arquitectónicos? Pensamos que não. Mas então porque será que tal não é feito? E a supervisão das obras, não garante que todo os fios fiquem adequadamente presos às fachadas? Até mesmo nos edifícios públicos, propriedade das autarquias ou do Estado? Algo de muito estranho se está a passar pois o fenómeno tende a alastrar.
obrigado pelo "Desassossego".

2008-10-05

‘I don't give a shit but I care quite a lot.' Richard Serra

Elevational Mass, 2006, Aço, 152.4 x 213.4 x 182.9 cm
Porque será que Richard Serra nunca recebeu uma encomenda da Tate Modern para produzir um trabalho site specific destinado à grande nave da turbina? A pergunta é dirigida por Adrian Searle (crítico de arte do Guardian) a Richard Serra, numa das raras entrevistas concedidas pelo escultor americano nas vésperas da inauguração da sua exposição da Gagosian Gallery, em Londres. Serra responde: “eu não digo nada, mas fico satisfeito que você coloque a questão”.
Seguem-se alguns excertos da entrevista que pode ser lida na totalidade na edição do Guardian online (5 Out 08):
“Não me considero um artista político, mas tudo aquilo que possa contribuir para fazer a diferença, farei. A América é um país de direita e eu sou essencialmente da velha esquerda.”
…
“Tenho uma certa obstinação, um certo voluntarismo que me arranjou problemas, mas que também me tem ajudado “.
....
Acerca da peça de Serra que recebeu o título “Fernando Pessoa”, Adrian Searle adianta: “há qualquer coisa de Orwelliano nesta peça, embora tenha sido intitulada em honra do escritor português, autor do Livro do Desassossego [Serra] diz que a relação é tangencial: o [escultor] estava a ler o livro enquanto fazia a peça, avisando que “não se deve ler demasiado nos meus títulos.” Searle recorda que no passado o escultor já dedicara trabalhos a Charlie Chaplin e a Buster Keaton, ao realizador alemão Rainer Werner Fassbinder e ao crítico de arte David Sylvester). O entrevistador reconhece que a peça de Serra é poderosa; numa alusão a fundições e a estaleiros navais, ao Muro de Berlim e à grande divisória construída pelos israelitas que serpenteia pelos territórios palestinianos. Searle alerta-nos para o facto de tudo isto poder causar consternação a todos aqueles que preferem que a arte tenha a ambição de elevar o espírito.
Para Serra “a função da arte não é ser agradável”, acrescentando polémica com a declaração: “a arte não é democrática. Não é para o povo”.
….
"Kill Serra" (Matem Serra). As pessoas ameaçavam que queriam matar-me. Eu fazia arte em Nova Iorque. Isso é um pouco extremista, não acha?”
….
“Foram certamente as curvas”. Quando mostrei pela primeira vez Torqued Ellipses, há dez anos, em Nova Iorque, havia o sentimento que as pessoas reagiam ao trabalho de forma diferente. As pessoas reagiam de forma diferente às curvas do que tinham reagido às linhas rectas. Era inédito. O Modernismo foi o ângulo recto; todo o século XX foi o ângulo recto.”
….
“Cresci pobre mas o ambiente era rico. Parecia que havia sempre discussões políticas lá em casa; debates sobre que tipo de vida que devia ser vivida. O lugar de onde vens confere significado ao que fazes. Julgo que foi assim para mim. Sou obstinado, disso tenho a certeza.”
….
Insiste: “As pessoas estavam preparadas para as formas curvas” …. “Eu era ainda muito jovem, tentava ser pintor, quando fui a atingido de forma fulgurante. Demorei-me na sua apreciação [Las Meninas] até que percebi que eu era uma extensão do quadro. Uma verdadeira revelação. Nunca tinha visto nada igual, o que me fez pensar sobre a arte e sobre o que estava a fazer, de uma forma radicalmente diferente. Mas primeiro, lançou-me num estado de total confusão.” …. “No meu trabalho mais tardio, a pessoa que navega no espaço, a sua experiência torna-se conteúdo. Então, toda a relação sujeito-objecto é invertida. O conteúdo é você! Se não caminhar na direcção do trabalho e interagir com ele, não existe conteúdo. Foi exactamente com isso que eu tive que lidar a partir do momento em que vi pela primeira vez o quadro de Velasquez.” .... “Os bailarinos foram os mais radicais. Ensinaram-me mais sobre espaço, movimento e gravidade do que quaisquer outros.” .... A propósito da exposição no Grand Palais, Paris (2006): “Meu caro, isso foi andar na corda bamba. Não havia forma de disfarçar o que fosse. O espaço era grandioso. Não sabíamos se a peça ia funcionar até à instalação da primeira placa. Foi uma das experiências mais gloriosas de toda a minha vida, quando me apercebi que funcionava. Foi talvez a primeira vez em que pensei que havia feito algo melhor do que eu próprio enquanto pessoa.”
nuvens roçam além chamas avermelhadas/ como a maré na praia ondulam/ sempre altas, inconstantes ... 
Hölderlin

2008-10-03

Acabei de ler:

Ian Kelly, Casanova, Hodder & Stoughton Ltd, 2008, 416 pp.
“Every man is three people; the man as he sees himself, the man as others see him, and the man as he really is.” (Don Giovanni)
A figura de Giacomo Casanova (1725-1798) tem motivado ao longo da história, discussões acesas e reacções apaixonadas, que o colocam entre as personagens mais amadas e odiadas de todos os tempos. O veneziano, nascido no primeiro quartel do século XVIII, no seio de uma família de actores é, incontestavelmente, uma figura controversa, à qual não podemos ficar indiferentes. Mesmo quando aderimos ao seu universo, verdadeiramente sedutor, que Ian Kelly reproduz na perfeição, quando conhecemos os seus impulsos, a sua genialidade criativa, o seu epicurismo levado a extremos em todos os patamares da sensualidade, não podemos também deixar de registar o seu lado mais obscuro, que se pode revelar verdadeiramente negro, perverso e marcadamente reprovável para o espírito contemporâneo. O historiador Ian Kelly, aqui tornado biógrafo, traça o itinerário da vida de Casanova, desde o seu nascimento, em Veneza, até à sua morte em Praga, aos 49 anos. O período que medeia estas duas balizas cronológicas, assenta não só nas memórias que o próprio Casanova nos deixou, mais de 3600 páginas onde se registam centenas de episódios da sua vida sentimental e sexual, a maioria com mulheres, mas também alguns, poucos, com homens; onde se relatam as suas experiências gastronómicas e os inúmeros enredos de natureza pessoal e alguns em contexto diplomático e/ou político. Apesar da vivacidade do texto de Casanova e da extraordinária crónica de costumes que contém, as suas palavras deverão ser lidas com prudência e distanciamento em relação ao próprio personagem que o autor descreve na primeira pessoa. É aqui que reside o notável trabalho de Kelly, ao cruzar as palavras do veneziano com outras fontes coevas, podendo em algumas ocasiões comprovar, documentalmente, alguns relatos que contemporâneos de Casanova, atribuíram à sua muito prolífica imaginação e que agora, pela primeira vez, se transformam em factos históricos. Trata-se de uma obra de referência para o entendimento de um personagem digno de libreto de ópera (actividade em que aliás terá participado …), ele que foi poeta, dramaturgo, matemático, filósofo, que criou lotarias, que ganhou e perdeu enormes fortunas, que iniciou uma formação eclesiástica para mais tarde se “perder” nos meandros da cabala, que gozou os prazeres eróticos das suas múltiplas experiências amorosas até definhar, vítima de um envelhecimento precoce, na enfermidade e na solidão. O retrato que fica é o do ocaso do Ancien Régime, do abismo que separava as elites dos restantes estratos sociais, do luxo e da miséria excessiva e imunda das ruas de Veneza, das festas populares, do teatro e da ópera, das cidades que Casanova visitou: Paris, Londres, São Petersburgo, Constantinopla entre muitas outras (terá percorrido 64.060 kms durante a sua vida), mas também o de um homem que tal como o regime político que o vira nascer, acaberia também ele próprio por desaparecer vítima da insaciável voragem do tempo.