2008-10-16

ainda os graffitis ... e o Bairro Alto

O pobre Bairro Alto
A Câmara Municipal de Lisboa anunciou hoje medidas para procurar por cobro à situação calamitosa a que chegou o Bairro Alto, vítima da "invasão" graffiteira que nada poupa na sua voragem. Recordam-se abaixo alguns "posts" que continuam válidos. (Cf. DN "Uma fachada não fica limpa muito tempo", 16.10.08).

2008-10-15

Acabei de ler:

Ian Kelly, Cooking for Kings: The Life of Antonin Careme, the First Celebrity Chef : Walker & Company, New York, 2005, pp. 301
Antonin Carême (baptizado Marie Antoine Carême, nasc.? – fal. 1833 ) foi o primeiro chefe no verdadeiro sentido da palavra. Foi também o primeiro chefe a enriquecer e a publicar livros de cozinha. A sua ascensão é notável. Da criança abandonada nas ruas da Paris revolucionária, em 1792 (desconhece-se a data do seu nascimento), até à confirmação do chefe de excepção e ao seu reconhecimento generalizado como um dos expoentes máximos da arte da cozinha. Aprendeu pastelaria com o homem que o tirou da rua, mas a sua obsessão foram as sopas. Aos 25 anos já era uma figura conhecida e prestigiada na Paris napoleónica, conhecido pelas suas pièces montées, também chamadas de extraordinaires que eram "extraordinárias" peças de aparato, em grande escala, feitas de massa de confeiteiro coberta de açúcar e que serviam de verdadeiros centros de mesa. As pièces de Carême tomavam múltiplas formas, podendo mesmo constituir verdadeiras arquitecturas. O jovem cozinheiro passou muitas horas na biblioteca pública de Paris estudando os tratados de arquitectura, as plantas e os alçados que viria a utilizar nas suas próprias construções em massapão, cremes e frutos. Foi ele que executou o bolo de casamento para Jerome Bonaparte, irmão do imperador. Na qualidade de chef de Talleyrand, um verdadeiro ministro, anfitrião dos mais altos dignitários estrangeiros, preparou ementas surpreendentes e serviu lautos repastos. Trabalhou também para o Príncipe de Gales, futuro Jorge IV, em Brighton, para o czar Nicolau I, em São Petersburgo, e para corte austríaca, em Viena. Já em 1823, viria a ser contratado por Jacob de Rothschild, na procura de aceitação pela sociedade parisiense, sempre tão exigente à mesa e tão pronta a reconhecer os méritos culinários de quem a poderia ainda surpreender. Foi Carême o inventor do merengue e do vol-au-vent, mas também do chapéu de cozinheiro. Foi ainda autor, entre outras obras, de L’Art de la Cuisine fançaise au dix-neuvième siècle. O autor de Cooking for Kings, Ian Kelly, fornece-nos ainda muitas receitas do mestre e ilustrações que contribuem para tornar ainda mais viva esta excelente biografia de um personagem tão apaixonante, que se lê de um só fôlego. 

2008-10-12

Andrea Mantegna "invenit"

Andrea Mantegna, Agonia no horto, c. 1457-59 (Tours)
Andrea Mantegna, Agonia no horto, c. 1460 (Londres)
A propósito da exposição  Mantegna no Museu do Louvre, vale a pena trazer aqui esta versão de Agonia no horto, pintada em c. 1460, que se encontra na National Gallery de Londres e que antecedeu, em cerca de dois anos, uma outra pintura, com o mesmo tema, que Mantegna executou  (Museu de Tours). Do meu ponto de vista a versão londrina é mais eloquente na organização do espaço pictórico, num ziguezagueado ascendente, introduzindo várias narrativas: em primeiro plano, os apóstolos adormecidos; em plano de fundo, ao longe, Judas e um conjunto de guardas, deslocando-se na direcção de Cristo, provavelmente para o prender; em plano superior Jesus encontra-se em oração, face a um grupo de anjos, um deles apoiando-se numa cruz, símbolo da paixão.
Giovanni Bellini, Agonia no hortoc. 1465 (Londres)
As duas pinturas de Mantegna antecedem uma outra, com o mesmo tema, desta vez do veneziano Giovanni Bellini (cunhado de Mantegna), pintada c. 1460 (National Gallery, Londres). A representação de Bellini segue idêntico esquema compositivo, embora mais simplificado, favorecendo a cor, a representação de um céu "naturalista" (nascer do dia) e a diáfona presença de um anjo que exibe os atributos do sacrifício. Presume-se que tanto Mantegna como Bellini sejam devedores de um desenho de Jacopo Bellini, sogro do primeiro e pai do segundo, com o mesmo tema. A exposição de Paris reune um significativo número de obras de Mantegna (1430/1-150), artista nascido no norte de Itália, na região de Pádua e que se notabilizou como pintor, gravador e amante do "antigo" e dos clássicos, nas cortes dos Gonzaga e dos Este .

2008-10-10

Medalha de ouro para Siza

Adega em Campo Maior, arq. Álvaro Siza
He should make anyone proud to be, or want to be, an architect Jonathan Glancey, The Guardian
O arquitecto Siza Vieira acaba de ser galardoado com o prestigioso prémio RIBA (Royal Institute of British Architects) para o conjunto da sua obra. O arquitecto, que não tem obra construída no Reino Unido, participou com Souto Moura no projecto Summer Pavillion levado a cabo pela Serpentine Gallery, Londres (2005). Todos os anos, arquitectos de renome internacional, são convidados para dar corpo a uma estructura temporária que é erguida nos Jardins do Palácio de Kensington (Julho a Outubro). A edição do ano passado (2008), a oitava, contou com a participação do arquitecto Frank Gehrry. O Summer Pavillion passou a fazer parte do roteiro cultural de Londres durante o verão. Convirá não esquercer que a Serpentine Gallery é uma das mais reconhecidas galerias de Londres, com uma programação de grande qualidade. As suas exposições são imperdíveis.

2008-10-06

Fios de muitos embaraços III

Fios de muitos embaraços II

Rua 5 de Outubro
Rua Elias Garcia
Rua de S. Mamede ao Caldas
Rua da Saudade

Fios de muitos embaraços I

Rua Marquês de Tomar
Há mistérios insondáveis. Interrogo-me várias vezes sobre o porquê de existirem tantos prédios antigos com fios soltos, sejam eles de telefones, de televisão, eléctricos e tantos outros, que nem consigo identificar para que servem, tal o emaranhado, excrescendo das fachadas. Será que tudo funciona? O mistério adensa-se com o passar do tempo, pois grande parte desses verdadeiros “novelos” permanecem durante anos, sem que nada aconteça. Muitos dos fios são puxados, repuxados e a confusão instala-se. Os prédios novos não registam estes “embaraços”, uma vez que os projectos de construção previram as várias necessidades da vida moderna, em que um simples cabo é veículo de múltiplos confortos, da televisão por cabo à Internet, passando pelo inevitável telefone fixo. Todavia, aos edifícios mais velhos, concebidos noutros tempos, de mais parcas comodidades, são-lhe sucessivamente acrescentados cabos, fios e outras utilidades, à medida das exigências dos seus ocupantes, sejam eles arrendatários ou proprietários, de diferentes gerações, etnias, culturas ou estratos sociais. Podemos constatar que o caos se instalou, principalmente, depois desses edifícios serem sujeitos a obras exteriores, sejam elas estruturais ou de simples cosmética. Será assim tão difícil reconstituir as instalações, depois de pintadas as fachadas, as janelas e vãos, varandins e outros elementos arquitectónicos? Pensamos que não. Mas então porque será que tal não é feito? E a supervisão das obras, não garante que todo os fios fiquem adequadamente presos às fachadas? Até mesmo nos edifícios públicos, propriedade das autarquias ou do Estado? Algo de muito estranho se está a passar pois o fenómeno tende a alastrar.
obrigado pelo "Desassossego".

2008-10-05

‘I don't give a shit but I care quite a lot.' Richard Serra

Elevational Mass, 2006, Aço, 152.4 x 213.4 x 182.9 cm
Porque será que Richard Serra nunca recebeu uma encomenda da Tate Modern para produzir um trabalho site specific destinado à grande nave da turbina? A pergunta é dirigida por Adrian Searle (crítico de arte do Guardian) a Richard Serra, numa das raras entrevistas concedidas pelo escultor americano nas vésperas da inauguração da sua exposição da Gagosian Gallery, em Londres. Serra responde: “eu não digo nada, mas fico satisfeito que você coloque a questão”.
Seguem-se alguns excertos da entrevista que pode ser lida na totalidade na edição do Guardian online (5 Out 08):
“Não me considero um artista político, mas tudo aquilo que possa contribuir para fazer a diferença, farei. A América é um país de direita e eu sou essencialmente da velha esquerda.”
“Tenho uma certa obstinação, um certo voluntarismo que me arranjou problemas, mas que também me tem ajudado “.
....
Acerca da peça de Serra que recebeu o título “Fernando Pessoa”, Adrian Searle adianta: “há qualquer coisa de Orwelliano nesta peça, embora tenha sido intitulada em honra do escritor português, autor do Livro do Desassossego [Serra] diz que a relação é tangencial: o [escultor] estava a ler o livro enquanto fazia a peça, avisando que “não se deve ler demasiado nos meus títulos.” Searle recorda que no passado o escultor já dedicara trabalhos a Charlie Chaplin e a Buster Keaton, ao realizador alemão Rainer Werner Fassbinder e ao crítico de arte David Sylvester). O entrevistador reconhece que a peça de Serra é poderosa; numa alusão a fundições e a estaleiros navais, ao Muro de Berlim e à grande divisória construída pelos israelitas que serpenteia pelos territórios palestinianos. Searle alerta-nos para o facto de tudo isto poder causar consternação a todos aqueles que preferem que a arte tenha a ambição de elevar o espírito.
Para Serra “a função da arte não é ser agradável”, acrescentando polémica com a declaração: “a arte não é democrática. Não é para o povo”.
….
"Kill Serra" (Matem Serra). As pessoas ameaçavam que queriam matar-me. Eu fazia arte em Nova Iorque. Isso é um pouco extremista, não acha?”
….
“Foram certamente as curvas”. Quando mostrei pela primeira vez Torqued Ellipses, há dez anos, em Nova Iorque, havia o sentimento que as pessoas reagiam ao trabalho de forma diferente. As pessoas reagiam de forma diferente às curvas do que tinham reagido às linhas rectas. Era inédito. O Modernismo foi o ângulo recto; todo o século XX foi o ângulo recto.”
….
“Cresci pobre mas o ambiente era rico. Parecia que havia sempre discussões políticas lá em casa; debates sobre que tipo de vida que devia ser vivida. O lugar de onde vens confere significado ao que fazes. Julgo que foi assim para mim. Sou obstinado, disso tenho a certeza.”
….
Insiste: “As pessoas estavam preparadas para as formas curvas” …. “Eu era ainda muito jovem, tentava ser pintor, quando fui a atingido de forma fulgurante. Demorei-me na sua apreciação [Las Meninas] até que percebi que eu era uma extensão do quadro. Uma verdadeira revelação. Nunca tinha visto nada igual, o que me fez pensar sobre a arte e sobre o que estava a fazer, de uma forma radicalmente diferente. Mas primeiro, lançou-me num estado de total confusão.” …. “No meu trabalho mais tardio, a pessoa que navega no espaço, a sua experiência torna-se conteúdo. Então, toda a relação sujeito-objecto é invertida. O conteúdo é você! Se não caminhar na direcção do trabalho e interagir com ele, não existe conteúdo. Foi exactamente com isso que eu tive que lidar a partir do momento em que vi pela primeira vez o quadro de Velasquez.” .... “Os bailarinos foram os mais radicais. Ensinaram-me mais sobre espaço, movimento e gravidade do que quaisquer outros.” .... A propósito da exposição no Grand Palais, Paris (2006): “Meu caro, isso foi andar na corda bamba. Não havia forma de disfarçar o que fosse. O espaço era grandioso. Não sabíamos se a peça ia funcionar até à instalação da primeira placa. Foi uma das experiências mais gloriosas de toda a minha vida, quando me apercebi que funcionava. Foi talvez a primeira vez em que pensei que havia feito algo melhor do que eu próprio enquanto pessoa.”