2008-10-05

nuvens roçam além chamas avermelhadas/ como a maré na praia ondulam/ sempre altas, inconstantes ... 
Hölderlin

2008-10-03

Acabei de ler:

Ian Kelly, Casanova, Hodder & Stoughton Ltd, 2008, 416 pp.
“Every man is three people; the man as he sees himself, the man as others see him, and the man as he really is.” (Don Giovanni)
A figura de Giacomo Casanova (1725-1798) tem motivado ao longo da história, discussões acesas e reacções apaixonadas, que o colocam entre as personagens mais amadas e odiadas de todos os tempos. O veneziano, nascido no primeiro quartel do século XVIII, no seio de uma família de actores é, incontestavelmente, uma figura controversa, à qual não podemos ficar indiferentes. Mesmo quando aderimos ao seu universo, verdadeiramente sedutor, que Ian Kelly reproduz na perfeição, quando conhecemos os seus impulsos, a sua genialidade criativa, o seu epicurismo levado a extremos em todos os patamares da sensualidade, não podemos também deixar de registar o seu lado mais obscuro, que se pode revelar verdadeiramente negro, perverso e marcadamente reprovável para o espírito contemporâneo. O historiador Ian Kelly, aqui tornado biógrafo, traça o itinerário da vida de Casanova, desde o seu nascimento, em Veneza, até à sua morte em Praga, aos 49 anos. O período que medeia estas duas balizas cronológicas, assenta não só nas memórias que o próprio Casanova nos deixou, mais de 3600 páginas onde se registam centenas de episódios da sua vida sentimental e sexual, a maioria com mulheres, mas também alguns, poucos, com homens; onde se relatam as suas experiências gastronómicas e os inúmeros enredos de natureza pessoal e alguns em contexto diplomático e/ou político. Apesar da vivacidade do texto de Casanova e da extraordinária crónica de costumes que contém, as suas palavras deverão ser lidas com prudência e distanciamento em relação ao próprio personagem que o autor descreve na primeira pessoa. É aqui que reside o notável trabalho de Kelly, ao cruzar as palavras do veneziano com outras fontes coevas, podendo em algumas ocasiões comprovar, documentalmente, alguns relatos que contemporâneos de Casanova, atribuíram à sua muito prolífica imaginação e que agora, pela primeira vez, se transformam em factos históricos. Trata-se de uma obra de referência para o entendimento de um personagem digno de libreto de ópera (actividade em que aliás terá participado …), ele que foi poeta, dramaturgo, matemático, filósofo, que criou lotarias, que ganhou e perdeu enormes fortunas, que iniciou uma formação eclesiástica para mais tarde se “perder” nos meandros da cabala, que gozou os prazeres eróticos das suas múltiplas experiências amorosas até definhar, vítima de um envelhecimento precoce, na enfermidade e na solidão. O retrato que fica é o do ocaso do Ancien Régime, do abismo que separava as elites dos restantes estratos sociais, do luxo e da miséria excessiva e imunda das ruas de Veneza, das festas populares, do teatro e da ópera, das cidades que Casanova visitou: Paris, Londres, São Petersburgo, Constantinopla entre muitas outras (terá percorrido 64.060 kms durante a sua vida), mas também o de um homem que tal como o regime político que o vira nascer, acaberia também ele próprio por desaparecer vítima da insaciável voragem do tempo.

2008-09-30

“Silence is so accurate” (Mark Rothko)

De origem judia, emigrado do ainda império russo com a família para os Estados Unidos, em 1913, Rothko é um dos nomes incontornáveis do designado Expressionismo Abstracto (movimento com origem nos EUA, no pós II Guerra Mundial), que integra nomes como Jackson Pollock, Jean Dubuffet, Franz Kline, de Kooning, entre outros).
O Expressionismo Abstracto tem como campo privilegiado a pintura. Algo de comum a todos os artistas que abraçaram este movimento artístico é a importância dada à superfície da tela como um todo. Não há um lugar especialmente importante, como o centro, por exemplo, onde o pintor concentre a sua atenção e assim conduza a atenção do observador. A tela torna-se uma espécie de “campo de combate” onde toda a acção se desenrola; onde a cor encontra o seu verdadeiro lugar. É esse o espaço do referente, que reside no seio da própria pintura e não exteriormente a ela. Existe uma espécie de “virtude” neste espaço quase sagrado que é, de facto, onde tudo se desenrola; onde a pintura verdadeiramente acontece.
É importante em Rothko a sua visão do mito (certamente inspirada na obra de Nietzsche) como instrumento estruturante em tempos de crise da espiritualidade, como se houvesse um vazio que é imperioso preencher. Esse vazio é preenchido pela cor, que se torna instrumental, percorrendo paletas quentes e luminosas, que podem dar lugar a atmosferas frias e sombrias que provocam em nós, simples mortais, sensações que oscilam entre o conforto e o desconforto, entre o êxtase e a depressão, entre a vontade de entrarmos na superfície da tela e nos perdermos na inebriante imensidão cromática que se torna a razão de ser da pintura. O que permanece sempre na pintura de Rothko é o silêncio. Profundo, exacto, inalterável.
É por tudo isto que a exposição recentemente inaugurada na Tate Modern, em Londres (26 de Setembro de 2008 a 1 de Fevereiro de 2009) é absolutamente fundamental para confirmar a vitalidade da pintura de Rothko no início do século XXI. A exposição apresenta a excelente colecção da Tate em confronto, pela primeira vez, com os “Seagram Murals” concebidos para o restaurante The Four Seasons (Edifício Seagram, em Nova Iorque) a que se juntam outras séries: Black-form paintings, os trabalhos de grande escala, em papel (série castanha e série cinza), e ainda a última série de pinturas Preto sobre cinzento, realizada já no fim da sua vida entre 1958-1970.

2008-09-29

Os azulejos de Maria Keil

Confesso que estive muito tentado a assinar a petição online que dava conta da “injustiça” cometida com Maria Keil e os seus painéis de azulejos destruídos pelo Metropolitano de Lisboa. É difícil não seguir o apelo daquilo que consideramos justo, sobretudo se o infractor for uma entidade, mais ou menos poderosa, um tanto parda, na medida em que temos dificuldade em materializar a identidade dos seus responsáveis, sejam eles conselhos de administração, presidentes ou CEO(s). Ainda por cima a artista Maria Keil, senhora que já ultrapassou os 90 anos, figura que granjeou a nossa simpatia colectiva, através das suas ilustrações (muitas delas para livros infantis, que “formataram” muito do nosso imaginário) e da presença na cidade de muitos marcos daquilo que hoje se escolheu designar de “arte pública”, tornaria ainda mais válida a nossa repulsa por tão vis actos e afrontas. Sei que referir tudo isto depois da notícia vir a lume este sábado, no Expresso, parece um exercício de oportunismo e petulante clarividência. Confesso que não é. Antes de Maria Keil ter destruído a polémica – ela que nem foi consultada pelos autores da petição – sobre a história dos azulejos, da sua destruição, da forma como não teria sido compensada, etc., procurei documentar-me sobre o assunto. Ao fazê-lo, foi-me dito que o assunto estava ultrapassado há anos. Pude mesmo constatar que o próprio Museu do Azulejo é detentor dos desenhos que a artista concebeu para a execução dos famigerados painéis e que nunca houve um “caso” levantado por Maria Keil: “Em que mundo é que vivemos, que põem coisas assim na internet sem falar com ninguém?” (Maria Keil, in Expresso, 27-09-08). O que podemos retirar de tudo isto? Em primeiro lugar, o método: blogs e mails funcionam como rastilhos, bastando para isso lançar suspeitas, o resto é feito pelos próprios nautas, que se encarregam da propagação, muitas das vezes, automaticamente, sem mesmo ler o correio recebido; e em segundo lugar, o conteúdo: chega-nos um pouco de tudo, apelando à costumeira sinergia de grupo, maioritariamente acrítica, empolgando-se por causas “públicas”, ao alcance de um qualquer indicador, naturalmente acéfalo.

2008-09-26

"Logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade a navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico de um miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal." 
 José Cardoso Pires. Lisboa - Livro de Bordo: vozes, olhares, comemorações 3 ed. Lisboa: Dom Quixote, 1998, p. 7.

2008-09-24

Graffitis em Lisboa e “O mistério das portas azuis”

Obrigado à Time Out e à República dos Corvos por desvendar, no número do seu 1º aniversário (Parabéns, Parabéns), o mistério das portas azuis. A responsabilidade é de Eko Five (32 anos, vive e trabalha em Espanha). Tal como diz à revista: “Isto não é uma brincadeira de putos. É agarrar nos prédios devolutos e, sem estragar as fachadas, embelezá-los. Não estragamos património, respeitamos muito as fachadas dos prédios”. O colectivo de artistas responsável pela intervenção refere ainda não desanimar quando os seus graffitis foram invadidos por “tags”: “Voltámos lá e pintámos por cima …”. Este poderá ser um tipo de intervenção que a cidade precisa. O campo é fértil. Ver assuntos relacionados neste blog: Graffitis e caca de cão I.

2008-09-22

Reconversão de lugares de culto religioso – irrelevância do espaço sagrado e o pragmatismo contemporâneo.

Para o homem primordial o mundo era habitado por muitos deuses. As suas casas eram lugares imensos, como a própria Natureza. Era então difícil ao Homem abarcar a ideia de domesticar esses entes, ou trazê-los para a vivência do seu quotidiano. Assim, eles tornaram-se o próprio sol, ou assumiram as qualidades dos elementos: fogo, terra, ar, água. A estes, juntaram-se muitos outros e com a sedentarização das comunidades humanas foram-se também reservando “espaços” para os evocar e adorar. Aos deuses antigos juntaram-se novos, na constante procura do entendimento da razão da existência e dos seus fenómenos. As grandes civilizações, primeiro as orientais, depois as próximas da bacia do mar Mediterrâneo, procuravam adorar os seus deuses e divindades adoptando lugares que pela sua posição geográfica permitiam uma maior interacção com essas entidades. O Olimpo e a sua contrapartida terrena é produto da civilização grega que assim assimilava um legado milenar, dando-lhe um significado verdadeiramente novo. Torna-se fundamental assumir uma vivência cultual que se materializa e dissemina através da construção de altares e templos cujas fundações cresciam sobre um chão que se tornava sagrado. Mas será em Roma, pátria do pragmatismo, onde nascerá um templo dedicado a todos os deuses, o Panteão. O templo inicialmente mandado construir por Agripa no rescaldo na batalha de Actium (31 a. C.) pereceu num incêndio (80 d. C.). Coube então ao imperador Adriano (76-138 d. C.) a ideia de o reconstruir, no mesmo local, ou seja, no mesmo chão sagrado, a partir de 125 d. C., o monumental edifício que chegou aos nossos dias. Ao reconstruir o templo no mesmo chão onde se erguera o anterior, o pantheon saía reforçado na sua sacralidade. Adriano pede ao arquitecto que incorpore na nova fachada a referência a Agripa, que fora afinal o construtor do templo destruído: M·AGRIPPA·L·F·COS·TERTIVM·FECIT (Marcus Agrippa, Lucii filius, consul tertium fecit). O edifício viria a ser reparado em 202 d. C. durante o consulado do imperador Caracala. Em 609 o edifício é doado pelo então imperador bizantino ao Papa Bonifácio IV que o consagra ao culto cristão, assumindo o templo o nome de igreja de Santa Maria dos Mártires. A importância do Panteão no fixar de uma nova gramática construtiva é da maior relevância para os artistas do Renascimento, sobretudo para os arquitectos, como Brunelleschi que percebe parte da solução construtiva da magnífica abóboda. Os resultados práticos da sua investigação podem ainda hoje ser observados em Florença, no Duomo (Santa Maria del Fiore). É no panteão que são tumulados pintores como Rafael e Anibal Carracci ou os reis de Itália Vítor Emanuel II e Humberto I. Isto para dizer que a sacralização do templo não se perdeu na voragem do tempo, o templo continua lá, embora seja hoje um lugar de peregrinatio para turistas de todos mundo, de todas as culturas e cultos, recebendo-os a todos como aliás fizera já, em tempo remotos, a todos deuses. Claro está que outros edifícios de assumida grandeza, como lugares de culto, sofreram percursos análogos ao longo da história. Alguns interrompendo ou anulando a sua razão de existir, por períodos variáveis, conforme a história desenha o seu obstinado itinerário. Exemplo relevante é o Parténon (séc. V a. C.) na acrópole em Atenas, levantado para glorificar a deusa Atena, sucessivamente destruído e ocupado e reutilizado, como igreja cristã, mesquita otomana e até simples paiol. Se por um lado a sucessiva ocupação de um espaço sagrado, mesmo que por diferentes cultos ou religiões, numa espécie de antropofagia, vê reforçada pelo mais recente ocupante a sacralidade do lugar, também a sua utilização para outros fins poderá por em causa elementos fundadores da nossa cultura, assente no respeito pelo outro e pela diversidade dos seus costumes e crenças. Assim, a reconversão dos espaços anteriormente dedicados ao culto religioso, com sejam templos e igrejas, é um fenómeno que tem vindo a crescer nas últimas décadas na mesma proporção do declínio do número de fiéis. Entenda-se neste caso, os diferentes ramos do Cristianismo, nos países industrializados do Ocidente. Da Austrália aos Países Baixos, passando pelos Estados Unidos e Portugal, o fenómeno da reconversão dos edifícios a outros fins, é um fenómeno que veio para ficar. As motivações poderão ser várias, ainda que vejamos em primeiro lugar os interesses imobiliários, que aqui descobriram um filão a explorar. É aqui que reside o que poderemos classificar de “pragmatismo” ocidental, com as suas raízes no protestantismo do norte da Europa, que rapidamente desmonta os fundamentos de uma matriz cultural de séculos para, sem quaisquer preconceitos, a adaptar a um presente que se quer verdadeiramente do “seu tempo”. O facto de muitas igrejas terem sido abandonadas ao culto religioso e os seus recheios vendidos ou integrados em museus, levou a que se transformassem em enormes espaços vazios, muitos deles esquecidos pelas autoridades civis e religiosas, entregues por assim dizer à sua má sorte. Todos conseguimos apontar exemplos de igrejas e conventos que se tornaram verdadeiros armazéns, albergando animais, produtos diversos ao mesmo tempo que servem de abrigo a todo o tipo de actividades, sendo igualmente refúgio dos sem-abrigo. No momento em que a Igreja de S. Julião, em Lisboa, se prepara para mais uma intervenção, que irá transformá-la deste vez em museu do Banco de Portugal, importa apontar alguns dados da sua funesta história: a igreja primitiva datada do século XIII foi completamente destruída pelo Terramoto de 1755. A sua reconstrução, segundo risco pombalino, teve lugar entre 1802 e 1810. Viria a sofrer um incêndio em 1816, sendo de novo reconstruída entre 1814 e 1854. Em 1933 foi adquirida pelo Banco de Portugal, estando aberta ao culto até 1934. A igreja é hoje utilizada como garagem do Banco de Portugal. Este é um dos exemplos de edifícios religiosos cujas utilização sofreu e está em vias de sofrer alterações significativas à sua função primordial. Seguem-se imagens de outros edifícios religiosos reconvertidos, um pouco por todo o mundo, que são exemplos reveladores da irrelevância do chão sagrado e do pragmatismo contemporâneo:
Igreja de S. Julião, Lisboa
Igreja Sta Teresa, Boston (convertida em casa)
Igreja convertida em casa, NY
Igreja dominicana, Maastricht, arq. Merkx + Girod Prémio arquitectura de interiors 2007 Utreque
Utreque
Igreja de S. Bartolomeu, Chodovice, Boémia Oriental, arq. Maxim Velcovsky
Igreja de S. Bartolomeu, Chodovice, Boémia Oriental, arq. Maxim Velcovsky